O anúncio das quatro indicações ao Oscar 2026, na quinta-feira (22), levou O Agente Secreto ao mais alto patamar do cinema mundial. Mesmo antes da chegada ao Oscar, vencedor do Globo de Ouro e do Festival de Cannes, o longa já vinha produzindo efeitos fora das telas, impactando a economia pernambucana e ativando cadeias que vão do Carnaval ao futebol, do turismo cultural ao comércio tradicional do Recife.
Esse movimento começa a se materializar no Carnaval, uma das engrenagens mais tradicionais da economia cultural do Estado. Fundada em 1947, a Troça Carnavalesca Pitombeira dos Quatro Cantos, de Olinda, é uma das agremiações mais emblemáticas da folia pernambucana e foi reconhecida como Patrimônio Vivo de Pernambuco em 2023.
No filme, a troça ganha projeção internacional quando o personagem vivido por Wagner Moura — primeiro ator brasileiro indicado ao Oscar na categoria de Melhor Ator — aparece em cena vestindo a camisa amarela da Pitombeira, símbolo histórico da agremiação. Fora das telas, o efeito foi imediato. A procura pela camisa cresceu cerca de 50%, ampliando a receita da troça e reforçando o papel do Carnaval como fonte de renda e sustentabilidade cultural.
Futebol, cinema e identidade

Na esteira desse interesse, a moda também se tornou um vetor de impacto. A marca Chico Rei lançou uma coleção inspirada em O Agente Secreto em parceria com os times Sport, Náutico e Santa Cruz. As peças fazem referência aos uniformes dos clubes nos anos 1970, período em que o filme é ambientado, e combinam estética retrô, futebol e cinema.
“O briefing que a gente tinha era: ‘Bom, o filme se passa em 1977, ou seja, vamos tentar nos inserir nesse universo”, conta. O processo envolveu pesquisa extensa de imagens e validação histórica junto aos clubes. “É uma releitura atualizada dos uniformes usados pelos três times em 77, que foi um ano muito simbólico”, explica o diretor de marketing da Chico Rei, Vitor Vizeu.
Vendidas por R$ 244,90, as peças são tratadas como produtos premium e oficiais, com repasse de royalties tanto para os clubes quanto para o filme. “É um produto que tem renda tanto para os clubes quanto para o filme, o que consideramos muito importante, na verdade, não só importante, é fundamental”, destaca.
O desempenho comercial surpreendeu já nos primeiros dias. A tiragem inicial, de 100 unidades por clube, foi rapidamente superada. “No primeiro dia a gente já havia superado e muito essa venda inicial. Aí decidimos triplicar, com 300 camisas por time”, diz Vizeu. Com a indicação ao Oscar, a expectativa é de crescimento adicional. “A gente acredita que pode aumentar pelo menos aí uns 20% numa venda que já era muito boa após a indicação.”
Canais de venda
As vendas começaram exclusivamente no ambiente digital, mas a boa aceitação pode abrir novas frentes. “São vendas online, mas a gente tem conversado com os clubes sobre a ideia de vender nas lojas físicas deles. Mas isso num segundo momento”, afirma. Segundo ele, a expansão para os pontos físicos é vista como um passo natural diante da procura e da repercussão positiva.
Além disso, a campanha foi pensada para ter fôlego ao longo dos próximos meses. “É uma campanha inicialmente pensada para até o dia 15 de março, quando acontece a cerimônia do Oscar, com vendas perenes”, explica. A expectativa, segundo Vizeu, é que o interesse ultrapasse o calendário da premiação. “Existe uma cauda longa nessa divulgação, a gente vai até março com esse produto ainda sendo relevante”, diz, acrescentando que a ideia é prolongar a vida útil da coleção mesmo após o resultado do Oscar.
Comércio do Centro do Recife
O Chá-Mate Brasília, no Centro do Recife, virou ponto de parada dos visitantes após servir de locação para O Agente Secreto e passou a incorporar o filme ao cotidiano do estabelecimento – Divulgação
O Agente Secreto também estimulou o chamado comércio afetivo, formado por estabelecimentos tradicionais que resistem às transformações da cidade. Um dos exemplos está no Chá-Mate Brasília, no Centro do Recife.
O estabelecimento histórico serviu de locação para o filme durante dois dias, período em que o proprietário José Pinheiro e funcionários da casa receberam cachês para atuar como figurantes. Após o lançamento do longa, Zé decidiu transformar a experiência em produto: criou um novo sabor de chá batizado com o nome do filme — um mate com leite e canela, que passou a integrar o cardápio da casa e é vendido por R$ 6,40, enquanto o simples custa R$ 4,40.
O Chá-Mate Brasília também prepara o lançamento de uma camisa inspirada na tradicional placa de preços do estabelecimento. A peça, batizada de Chá-Mate Agente Secreto, amplia o diálogo entre o filme e o comércio afetivo do Centro do Recife, transformando um símbolo cotidiano da casa em produto ligado à experiência cinematográfica. A camisa vai custar R$ 75 e começa a ser vendida no sábado (24).
Com a cerimônia do Oscar marcada para 15 de março, a expectativa em torno de O Agente Secreto mobiliza não apenas o meio cinematográfico, mas também o público pernambucano, que passou a torcer pelo filme como quem torce por um time ou por um bloco de Carnaval. Uma eventual vitória ampliaria a visibilidade do cinema brasileiro no cenário internacional e reforçaria o papel de Pernambuco como território criativo capaz de produzir narrativas universais a partir de histórias locais.
O Oscar e Pernambuco
Com as indicações de O Agente Secreto ao Oscar, a governadora anunciou a exibição da cerimônia no Cinema São Luiz — uma das locações do filme, espaço que recebeu a pré-estreia nacional do longa e parte da história cultural de Pernambuco.
Independentemente do resultado, o filme já deixa marcas visíveis. Ao transformar memória, identidade e estética em produtos, experiências e renda, O Agente Secreto mostra como o cinema nacional pode ganhar o mundo sem romper com o território de origem — das ruas do Recife ao tapete vermelho.
Fonte: JC