Os conflitos no Oriente Médio que se iniciaram no último sábado (28/2) podem trazer sérias implicações para o comércio mundial
Os recentes conflitos no Oriente Médio envolvendo os Estados Unidos, Israel e Irã têm potencial para influenciar a economia mundial.
A escalada de tensão entre os países acende alertas nos mercados internacionais e provoca reflexos em commodities e moedas. Embora o Brasil esteja distante do epicentro do conflito, a economia brasileira pode sentir os efeitos por meio da alta do petróleo, da pressão sobre o dólar e do risco inflacionário.
O temor central dos investidores é que uma escalada militar comprometa a oferta de petróleo no Oriente Médio, região estratégica para o abastecimento global.
Entenda a ofensiva no Irã
- Forças dos Estados Unidos e de Israel lançaram uma ofensiva aérea contra o Irã na madrugada do último sábado (28/2), atingindo dezenas de alvos militares e estratégicos em várias províncias;
- O aiatolá Ali Khamenei, líder máximo do Irã desde 1989, foi morto durante os bombardeios;
- O governo iraniano declarou Khamenei “martirizado” pelos ataques e decretou 40 dias de luto nacional, além de 7 dias de feriado oficial, ressaltando que o episódio “não ficará sem resposta”.
- Além de Khamenei, autoridades militares e políticas de alto escalão também foram reportadas como mortas nos ataques, incluindo chefes da Guarda Revolucionária e do Conselho de Defesa iranianos;
- A ofensiva foi condenada por líderes globais como uma ameaça à paz e segurança internacionais; organizações como a ONU alertaram para o risco de descontrolar ainda mais o conflito no Oriente Médio.
O Irã é um dos principais produtores da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep+), e qualquer risco de sanções mais duras ou interrupção logística tende a pressionar o valor do barril no mercado internacional.
Quando o preço do petróleo sobe, o reflexo costuma aparecer nas bombas de combustíveis brasileiras, já que a Petrobras acompanha as cotações internacionais como referência.
Além disso, a alta do barril impacta diretamente a gasolina e o diesel. No caso do diesel, o efeito é ainda mais sensível, já que o combustível influencia o custo do transporte de mercadorias, o que pode provocar um efeito cascata sobre alimentos e produtos básicos, pressionando o índice de inflação.
Por outro lado, como o Brasil é um produtor de petróleo, é possível que o país alcance outros mercados e comece a exportar mais do produto.
Ormuz
Outro ponto relevante é o bloqueio da navegação no Estreito de Ormuz, localizado em território iraniano e por onde circula cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo.
O canal é a principal via de saída do petróleo produzido na região do Golfo Pérsico, que inclui a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait e o Iraque.
Por ali passam diariamente dezenas de milhões de barris de petróleo e volumes importantes de gás natural liquefeito, conectando o Golfo ao Oceano Índico e aos principais mercados consumidores do mundo.
Especialistas de mercado alertam que, mesmo sem um fechamento total legalizado, a ameaça e a percepção de risco já exercem pressão sobre preços e cadeias de abastecimento, porque empresas de navegação, refinarias e seguradoras recalibram seus planos diante da instabilidade na região.
Na avaliação do professor da Strong Business School, Jarbas Thaunahy, “qualquer bloqueio, mesmo parcial, afetaria fluxos de petróleo e gás natural liquefeito. Mesmo sem interrupção física, o simples aumento do risco eleva custos de frete, seguro marítimo e hedge logístico. Isso encarece cadeias produtivas globais e pode gerar novos gargalos em setores dependentes de energia”, disse.
Dólar e bolsa
Conflitos internacionais costumam elevar a aversão ao risco global. Em momentos de incerteza, investidores tendem a buscar ativos considerados mais seguros, como títulos do tesouro norte-americano, o que fortalece o dólar frente a moedas de países emergentes, como o real.
A valorização da moeda americana encarece importações e também tem impacto indireto sobre a inflação. Além disso, a bolsa brasileira tende a operar com maior volatilidade em cenários de tensão geopolítica, especialmente em setores mais expostos ao cenário internacional.
Se o choque no petróleo e no câmbio for significativo e persistente, o efeito pode chegar às decisões de política monetária. Uma pressão adicional sobre os preços dificulta o trabalho do Banco Central (BC) no controle da inflação e pode influenciar o ritmo de cortes ou manutenção da taxa básica de juros.
Economistas avaliam que o impacto dependerá da duração do conflito. Um episódio pontual tende a gerar apenas volatilidade temporária. Já uma escalada prolongada pode consolidar um cenário de inflação mais resistente.
Para o professor, petróleo mais caro significa energia e transporte mais caros. Ele explica que energia é um insumo transversal à economia e uma alta consistente do barril tende a gerar pressão inflacionária adicional, especialmente em economias que ainda estão administrando os efeitos do ciclo inflacionário recente, como é o caso do Brasil.
Segundo Jorge Ferreira dos Santos Filho, professor do curso de Administração da ESPM e especialista em economia internacional, o movimento vai além de uma reação pontual dos mercados. Ele explica que o petróleo é um insumo transversal. Quando seu preço sobe de forma abrupta, há um efeito em cadeia sobre transporte, alimentos e indústria, o que pode reverter a tendência recente de desaceleração da inflação observada nas principais economias.
No curto prazo, o cenário é de maior volatilidade e busca por proteção. No médio prazo, caso o conflito se prolongue, os impactos podem ser mais profundos. “A alta persistente da energia tende a pressionar a inflação global e pode levar bancos centrais a adiar cortes de juros, inclusive no Brasil, afetando crédito, consumo e investimentos”, avaliou o professor.
Para o mercado brasileiro, segundo Filho, o efeito já começa a aparecer na reprecificação de ativos e nas expectativas de política monetária. Setores ligados a energia e commodities tendem a se beneficiar, enquanto áreas mais sensíveis ao custo de capital e ao consumo, como aviação, turismo e varejo, podem enfrentar um ambiente mais desafiador.
Balança comercial
O Brasil não mantém relação comercial expressiva com o Irã, o que reduz impactos diretos no fluxo bilateral. No entanto, oscilações nos preços internacionais de commodities, tanto energéticas quanto agrícolas, podem alterar termos de troca e receitas de exportação.
Além disso, fertilizantes e insumos importados podem sofrer variações de preço caso haja instabilidade prolongada na região.
Em 2025, o Brasil exportou apenas US$ 2,9 bilhões ao Irã, enquanto as importações foram de US$84,6 milhões, ou seja, a participação do país nas exportações brasileiras é de apenas 0,84%, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC).
Confira a principal pauta exportadora para o país:
- Milho não moído ;
- Soja;
- Açúcar e melaços;
- Farelo de soja.
Confira a principal pauta de importação para o Brasil:
- Adubos e fertilizantes;
- Frutas e nozes não oleaginosas;
- Medicamentos e produtos farmacêuticos;
- Frutas, preservados e preparações;
- Vidro e vidrarias.
FONTE: METROPOLES
